Pensamentos aleatórios, divagações ou nonsense puro

Segunda-feira, Maio 23, 2005

Sobre o direito de mudar de idéia

ou Em defesa da árvore torta

Coisas que eu queria ser quando era pequena:
(ou criança, considerando que 1,60m não é exatamente grande)
1. Dentista
2. Arquiteta
3. Piloto de Fórmula 1
4. Bailarina
5. Cientista maluca


O ser humano por natureza não sabe o que quer.

Retificando. O ser humano sabe o que quer: comer, dormir, reproduzir, não necessariamente nessa ordem. Fora isso o ser humano não sabe o que quer. Exemplo? Tente pedir uma pizza. Sozinho você já vai ter dificuldade. Agora pense que é pouco provável que você peça uma pizza sozinho, o que torna a tarefa ainda mais difícil.

A questão é que pessoas teimam em viver em sociedade, o que complica tudo! Porque aí não basta agradar a si mesmo e pronto. Você tem que agradar os outros também, senão eles te enchem o saco. Logo você faz coisas que não quer para que outras pessoas não façam o que você não quer.

Complicado? De jeito nenhum. Já tentou pedir pizza de calabresa numa turma de vegetarianos? Não, é claro que não. Porque por mais que seja mezzo a mezzo e que ninguém vá ficar com fome se não comer uma das partes da tal pizza, na melhor das hipóteses vão te olhar com uma cara de “Pai, perdoai. Ele não sabe o que faz”. Na pior, vão te acusar de assassino. Você decididamente não quer que eles façam isso, então pede quatro queijos. “Droga! Eu gosto de calabresa!”

Se você estiver sozinho pode pedir até alho e óleo, ou crocante (aquela coisa que vem com batata palha, aka atentado gastronômico). Quem se importa? É você quem vai comer, mesmo. Agora, é bem provável que fique em dúvida entre portuguesa, lombo com catupiry ou qualquer outra com bacon, por mais que goste de calabresa.

Tá vendo? Seres humanos não sabem o que querem. E não há mal nenhum nisso. Ou melhor, não haveria. Porque a dúvida da pizza até que é fácil de ser resolvida, você sempre pode pedir um sabor diferente na semana seguinte, mas e as outras? “Será que eu caso ou me mando pra Europa?” “Será que eu gosto de homem ou de mulher?” “Será que eu quero ser engenheiro ou cirurgião plástico?” “Será que se eu escolher agora vou poder mudar de idéia depois?” Não. Porque se você mudar de idéia vai ter um monte de gente pegando no seu pé.

Olha só a sacanagem: uma pobre criatura entre 16 e 18 anos, praticamente desprovida de razão dados os hormônios que tomam conta não só do seu corpo, mas também da sua mente, é obrigada a escolher o que vai fazer pelo resto da vida. Algum tempo depois essa criatura descobre que não era aquilo que ela queria. E aí, o que é que faz? Estranho pessoas que pedem divórcio terem um chilique quando os filhos abandonam a faculdade.

Não bastasse um pobre coitado ter que descobrir do que gosta, tem que arranjar algo que dê dinheiro. E não venha com essa de que dinheiro é o de menos porque todo mundo sabe que não é. Ou existe alguém que não precise morar, comer, vestir? Se não por si, pelos parentes que, preocupados, não vão largar do pé do dito-cujo. Quando não são os parentes são os vizinhos, os amigos, a sociedade, o Papa, a Rede Globo, o presidente, o raio-que-o-parta. Logo ele vai passar a fazer o que os outros esperam que ele faça só porque não suporta a aporrinhação. Ou vai aturá-la pro resto da vida.

Kant diz que uma árvore não pode ficar isolada para se desenvolver bem*. Ela precisa da proximidade de outras. Sabe por quê? Porque muitas árvores juntas necessitam criar raízes mais profundas para poderem extrair nutrientes do solo. Também precisam crescer mais e de maneira retilínea, pois se a sua copa ficar abaixo das outras não conseguirá tomar sol e pode acabar morrendo. Assim uma árvore isolada cresce pouco, desordenadamente e com raízes pouco profundas, enquanto várias juntas tornam-se fortes e exuberantes. Mas a que custo? Desculpa aí, seu Kant, mas eu duvido que a árvore torta precise de analista.


*Para mais: KANT, Immanuel. Idéia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita. In GARDINER, Patrick. Teorias da História.


3 Comments:

Anonymous tiagón said...

mas ei, que belo começo! :D

concordo contigo. donde é que tiraram que adolescentes podem - e devem - decidir coisas tão distantes como o "destino da própria vida"? mas não precisamos parar aqui... a chave está no início do teu texto. porque é que os adultos adoram perguntar às crianças,

"o que você quer ser quando crescer?"

mas por quê, pra quê fazer uma pergunta dessas? a única resposta correta pra um absurdo desses seria "sei lá, não tô preocupado, tô me esforçando pra ser só criança agora, e dá licença que eu vou tomar o meu chocolate!"

desde pequenos fomos levados a entender que sempre precisamos tornar-nos alguma coisa que não somos agora. e essa maldição também diz que agora, somos muito pouco; e que para chegarmos a algum lugar (onde?), precisamos nos apressar. porque falta muito e tem alguém correndo mais rápido que a gente.

é por isso que eu me esforço em prol da não-linearidade, eu acho. não quero entrar nesse sistema não. ou melhor - estou saindo, ó, zup!, tô quase caindo fora.

de novo, excelente início. e ah, poucas sensações são tão diferentes e estranhas e deliciosas quanto olhar pra tatuagem no dia seguinte :D

8:14 AM

 
Anonymous Rafael Junqueira said...

“Será que eu gosto de homem ou de mulher?”
Já te contei a história de que sempre quis ter uma amiga bi?

1:01 PM

 
Blogger Jose Carlos said...

"A questão é que pessoas teimam em viver em sociedade, o que complica tudo! Porque aí não basta agradar a si mesmo e pronto. Você tem que agradar os outros também, senão eles te enchem o saco."

Genius. Pure genius.

Agora trata de atualizar isso todo dia ok? Nós leitores somos uma classe muito exigente.

9:39 PM

 

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