Já devo ter dito isso, mas certas coisas merecem ser expostas, mesmo parecendo óbvias: ser humano é um bichinho eternamente insatisfeito. Não me refiro aqui a questões filosóficas e existenciais, mas a algo bem mais simples: aparência.
É histórico. Os egípcios já usavam maquiagem e esmalte, até mesmo como símbolo de poder. Os Hunos arrancavam os pêlos do rosto e queimavam o local para que não nascesse mais barba. Na Roma antiga, Ovídio escreveu
“Aprendam, belas jovens, os cuidados que embelezam o rosto e os meios de proteger sua beleza. (...) Tudo o que é decorado agrada; os altos tetos são folheados de dourado; a terra escura desaparece sob um revestimento de mármore; a lã recebe várias tinturas nas caldeiras de Tiro (...)”*
O que eu entendo disso? Nenhuma civilização está plenamente feliz com o invólucro no qual veio ao mundo e trata de criar recursos para melhorá-lo. Até aí tudo bem(?), não fossem os meios. O que dizer das mocinhas que viviam na corte à época de Luís XIV? Elas desmaiavam tanto não era à toa. Experimente usar um espartilho que comprima suas costelas até lhe deixar com uma cinturinha de trinta centímetros. Aquilo não era sensibilidade, era falta de ar! E as chinesas idolatradas pelos pés pequeninos? Envolvê-los em faixas para que não crescessem causava deformações permanentes, o que não deixava de ser prático, pois impedia que a mocinha fugisse do pai ou do marido por não conseguir correr.
Aposto que tem alguém pensando “ainda bem que os tempos são outros”. Que são outros não há dúvida, mas ainda bem por que? Achou o método huno drástico demais? O princípio é o mesmo da depilação a laser feita hoje em dia e sua prima pobre, a cera. Dá pra ir mais longe, com gente que injeta toxina botulínica no rosto ou que se submete a cirurgias estéticas. Tá bom, tá bom, sem exageros. Deixarei pelas moças que puxam e repuxam os cabelos, utilizam formol ou uma porção de substâncias tóxicas para deixá-los mais lisos, mais cacheados, mais coloridos... (Já notou que grávida não pode pintar o cabelo?)
Particularmente, com exceção da tal da cera, eu dispenso todos esses métodos de tortura. Meus instrumentos de danação são outros. Ficar em pé o dia inteiro com o peso do corpo sobre os dedos e o calcanhar apoiado numa haste de cerca de um centímetro de espessura por uns sete de altura, por exemplo. Ou então tentar permanecer de olhos abertos, cabeça inclinada pra trás, enquanto aproximo dos pobres uma escovinha cheia de tinta preta, ainda correndo o risco de errar os cílios e acertá-la dentro do olho.
Civilização é um saco.
* OVÍDIO. A arte de amar. L&PM, Porto Alegre, 2002. Pp.163.